apetece
às vezes apetece-me, nem sempre me apetece. às vezes estou aflito, outras vezes eu evito. em situações eu me levanto, horas depois eu fico em pranto. às vezes apetece-me, nem sempre me apetece. numa hora tão pouco, noutra hora tanto. a mão que me segura é a mesma que me empurra. às vezes apetece-me, nem sempre me apetece. alguns dias eu acordo-me, outros adormeço-me. a vida segue assim, a vida segue em mim. às vezes apetece-me, nem sempre me apetece.
neve
um dia haverá neve sobre o mar, dizia o louco no miradouro. um dia haverá neve sobre o mar e os nossos corpos irão tremer de frio como terramotos. nesse dia, quem sabe, adivinharemos de olhos fechados os nomes das marés.
prédio
o prédio deserto não é deserto, é uma voz algures no andar de cima, passos silenciosos nas casas, um pássaro morto encontrado numa varanda. o prédio deserto não é deserto, o barulho das canalizações, os livros que se mexem nos armários, o vento nas janelas. o prédio deserto é ainda um resquício da enchente, uma música entoada pelo espaço, no vazio que ficou dentro do prédio, dentro de nós.
cefaleia
a cabeça não rebenta, a cabeça fica, fica sempre no mesmo lugar, por cima do pescoço, como se mandasse, a cabeça não rebenta, a cabeça fica, mas quando fica a doer, a cabeça dói, a cabeça dói, e tu se rebenta à nossa volta, menos a cabeça.
invento
inventam as coisas com oceanos dentro e acabamos por sentir que o oceano é o meio que reparte, que divide, que afasta. inventam as coisas com ar dentro e acabamos por sentir que o ar é o exclusivo, o medicamento, o veneno. inventam as coisas com gente dentro e sentimos sempre que vamos ficar de fora. inventam as coisas como se inventassem coisas e nós, não tendo como as mudar, perdemos o sentido da invenção.